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sexta-feira, julho 11, 2014

Reticências. /parte II




Riamos até eu começar a chorar, apoiei-me ao seu ombro, era um aconchego que há tempos eu procurava. Ele quase desabava comigo, de tanto peso que eu levava na minha alma.

- Qual sua história, moça?
- O de sempre, des(amores), o caos, a vida propriamente dita.
- Anda tão ruim assim?
- O pior, meu caro, é que ela nem anda mais.


Voltei a rir, pois ele me olhava tão profundamente que eu achava engraçado, pois ninguém nunca havia me olhado daquela forma. Aqueles olhos - roubando as palavras de Machado e as colocando no masculino - de cigano oblíquo e dissimulado, que me fazia ter os maiores suspiros.

Entre goles de cachaças fortes e fumaças de cigarros baratos que compramos, ele me beijou. Um beijo de dar arrepios, de trazer leveza a alma, de aquecer o coração. Beijos, mãos bobas, caricias a flor da pele, bobagens ditas ao pé ouvido - a nossa solidão nos fazia companhia. Esquecemos da vida, ou do que restava delas, e nos entrelaçávamos mais e mais.


- O bar fecha daqui a cinco minutos. O garçom, meio sem graça disse.

Fomos caminhar, meio embriagados, meio amaçados, meio um só... Rimos sem parar, tropeçávamos, nos embolávamos ao chão; dois bêbados, duas almas pedindo socorro uma pra outra.


- My life is fucking. Sabe o que mais me faz rir em filmes que tem palavrões? 
quando os personagens falam isso: my life is fucking. fuck. fuck.
- Doida, você é uma doida!
- E você é um mistério, rapaz do olhar sedutor.
- Não gosta de mistérios?
- O chato é quando descobrimos, e olha que sou boa nisso, depois a graça acaba.
- Mais eu sou um dos mais difíceis.
- Então prefiro ficar sem descobrir, o bom de não se descobrir mistérios, é que
varias hipóteses rondam a nossa cabeça. Adoro isso.
- É, você é completamente doida!
- A vida já está cheia de pessoas sensatas. 
Os doidos merecem preenche-la um pouco.


E brindamos com as garrafas quase vazias... Até que comecei a cantarolar "Close your eyes and I'll kiss you, tomorrow I'll miss you" - e ele a acompanhou. Sabia que quando acordássemos, um não teria mais o outro. Nos somos de passagem. Já havíamos se acostumado com a solidão.


- Talvez tudo isso seja um sonho. Ele sussurrou.
- E como todos os sonhos, mais tarde acordaremos. Ela disse em seguida.
E ele finalizou: - a vida é cheia de surpresas!

[...]
S.

segunda-feira, dezembro 23, 2013

Reticências.


Entrei, sentei na mesa mais escura daquele bar sem graça, pedi a bebida mais forte ao garçom, acendi meu cigarro e a porra da música que eu evitava ouvir a semanas começou a tocar. Um estranho sentou-se ao meu lado, e perguntou:

- Tá na fossa, querida?
- A vida é uma fossa meu caro, estamos sempre sujos.
- Então, um brinde as merdas das nossas vidas!

 Perguntei se nos conhecíamos... "de outras vidas, quem sabe", ele me respondeu. 
Era um rapaz misterioso, deliciosamente misterioso.

- A vida é cheia de surpresas, moça.
- E de armadilhas também.
- E assim a gente vai vivendo...
- E se fudendo, e olha que não é de sexo que eu tô falando.

Rimos, meio embriagados e totalmente indignados com ambas as vidas, se perguntando se havia algum modo de se desviar de tantos escombros, de tantos amores mal/não vividos, de sonhos apenas sonhados, de pesadelos se tornando realidade, de tantos tormentos que poucos anos de vida nos haviam proporcionados. Riamos da nossa solidão, riamos dos nossos gostos desconhecidos que de alguma forma se encaixavam perfeitamente, riamos dos bêbados caindo ao lado do banheiro, riamos da gente, e das merdas de nossas vidas. 

"A vida é cheia de surpresas", ele sempre insistia.

[...]